Alimentação saudável na vida real: desafios, escolhas e caminhos
#Saúde e Nutrição
05 de maio de 26
Por Dra. Joyce Capelli, presidente do Instituto Melhores Dias
A promoção da alimentação saudável no Brasil nunca foi um tema tão urgente — e, ao mesmo tempo, tão complexo. A recente pesquisa “Comportamento Alimentar: Percepções e Desafios da Alimentação Saudável” (2026) traz uma contribuição relevante ao evidenciar um ponto central: o problema não está na falta de conhecimento, mas na dificuldade de transformar esse conhecimento em prática cotidiana.
O estudo, idealizado pela organização Pacto Contra a Fome e realizado pelo Instituto Pensi, com apoio da FOLU Brasil e cofinanciamento da Fundação José Luiz Setúbal, revela uma contradição que atravessa milhões de famílias brasileiras: enquanto há consciência sobre o que é uma alimentação saudável, fatores como tempo, custo, rotina e pressão social tornam essa escolha difícil de sustentar.
Os achados da pesquisa dialogam diretamente com o trabalho do Instituto Melhores Dias. Ao longo dos anos, temos buscado promover não apenas informação, mas transformação prática — respeitando as realidades locais e valorizando soluções possíveis.
Nossas ações partem de alguns princípios que a pesquisa também reforça:
- Alimentação saudável precisa ser acessível e prática;
- É necessário reduzir a carga mental das famílias, e não a aumentar;
- O saudável deve ser também prazeroso, culturalmente conectado e desejável;
- Crianças e jovens devem estar no centro das estratégias e devem ser vistos como os reais agentes de mudanças.
Ao estimular hábitos de vida saudáveis, o IMD atua não apenas na prevenção de doenças, mas na promoção de dignidade, autonomia e qualidade de vida.
Entre o saber e o fazer: o peso da vida cotidiana
A pesquisa mostra que a maioria das pessoas reconhece que alimentos in natura, como frutas, legumes e preparações caseiras, são mais saudáveis. Ainda assim, esse conhecimento disputa espaço com desafios concretos: acesso a alimentos frescos, jornadas de trabalho extensas, deslocamentos longos, cansaço e restrições financeiras.
Com isso, decisões alimentares passam a ser resultado de negociações diárias — os chamados trade-offs — entre tempo, preço, saciedade e praticidade. Não se trata de falta de disciplina, mas de adaptação à realidade.
Esse achado é fundamental porque rompe com uma visão simplista e, muitas vezes, injusta, que responsabiliza exclusivamente o indivíduo por suas escolhas alimentares. A alimentação é, antes de tudo, um fenômeno social.
O custo invisível de comer bem
Um dos pontos mais relevantes da pesquisa é a identificação da chamada “carga mental” associada à alimentação: planejar refeições, organizar compras, considerar preferências familiares e ainda lidar com o orçamento.
Esse trabalho invisível recai, em grande parte, sobre as mulheres — o que reforça a necessidade de políticas públicas e ações sociais que considerem a dimensão do cuidado e da divisão de responsabilidades dentro das famílias.
No IMD, ao trabalhar com comunidades e famílias, percebemos que apoiar hábitos saudáveis passa também por simplificar rotinas, oferecer soluções práticas e valorizar o contexto real das pessoas.
Ultraprocessados: não apenas uma escolha, mas uma resposta
Outro ponto importante trazido pela pesquisa é que o consumo de alimentos ultraprocessados não ocorre por desconhecimento, mas por necessidade. Eles são acessíveis, práticos, rápidos e, muitas vezes, funcionam como um alívio emocional em meio a rotinas exaustivas.
Isso nos leva a uma reflexão essencial: para promover mudanças reais, não basta dizer o que é saudável. É preciso tornar o saudável possível — e desejável.
Infância: o ponto de virada
A pesquisa reforça algo que o IMD considera central em sua atuação: a infância é uma janela decisiva para a formação de hábitos alimentares.
As escolas aparecem como espaços estratégicos, tanto na garantia de acesso à alimentação quanto na construção de repertório alimentar. Ao mesmo tempo, o ambiente alimentar — incluindo publicidade e produtos voltados ao público infantil — exerce forte influência sobre as escolhas.
Por isso, iniciativas que combinam educação alimentar, acesso a alimentos de qualidade e ambientes saudáveis têm maior potencial de gerar impacto duradouro.
Caminhos para o futuro
A pesquisa aponta que o desejo de comer melhor existe — e isso é uma oportunidade poderosa. O desafio está em criar condições para que esse desejo se torne realidade.
Isso exige uma abordagem integrada, que envolva políticas públicas, ambientes alimentares mais justos, educação alimentar contextualizada e sociedade civil comprometida com transformação social.
Promover alimentação saudável no Brasil não é apenas uma questão de saúde. É uma agenda de equidade, de desenvolvimento e de futuro. Sobretudo, é um esforço coletivo. Comer bem não deveria ser um privilégio — mas um direito de todos.


