Emergência climática: a escola não acompanha o tempo em que vivemos
#Meio Ambiente
10 de fevereiro de 26
Por Dra. Joyce Capelli, presidente do Instituto Melhores Dias
A crise climática deixou de ser uma previsão distante para se tornar parte do cotidiano dos brasileiros. Ondas de calor extremo, enchentes recorrentes, secas prolongadas e a perda acelerada de ecossistemas já não são exceção, mas sinais claros de um problema cada vez maior e mais constante.
Porém, quando olhamos para nossas escolas, percebemos um paradoxo inquietante: quanto mais a emergência climática se impõe à realidade, menos ela parece fazer sentido para muitos estudantes no processo educativo.
Dados recentes divulgados pelo Ministério da Educação, em parceria com o Consed, a Undime e o Itaú Social, escancaram esse descompasso. Ao ouvir cerca de 2,3 milhões de estudantes do ensino fundamental, a pesquisa revela que apenas um em cada dez jovens considera temas ambientais relevantes para sua formação escolar. O número não aponta para desinteresse juvenil, mas para uma falha sistêmica: a escola ainda não conseguiu transformar a crise climática em aprendizado significativo, conectado à vida real.
Os próprios estudantes oferecem pistas importantes. Em outro levantamento do MEC, eles expressam claramente o desejo por aulas que dialoguem com problemas concretos, que façam sentido no presente e apontem caminhos para o futuro. Não rejeitam o conhecimento — rejeitam a desconexão. Quando sustentabilidade aparece apenas como conceito abstrato, dissociado do território, da economia local, da saúde e da qualidade de vida, ela perde potência educativa.
No Instituto Melhores Dias, vivenciamos esse desafio de forma muito concreta. Atuamos há anos no desenvolvimento de conteúdos educativos que tratam de meio ambiente, sustentabilidade, alimentação consciente e cidadania de maneira integrada, acessível e prática. Atualmente, o Instituto possui diversos livros aprovados para patrocínio por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei nº 8.313/1991), concebidos justamente para apoiar escolas e educadores na abordagem transversal da emergência climática. Ainda assim, esses projetos seguem à espera de empresas patrocinadoras interessadas em viabilizar sua implementação.
Esse cenário revela uma contradição preocupante. Nunca se falou tanto em ESG, sustentabilidade e futuro. Entretanto, quando se trata de investir na base — na formação das crianças e dos jovens que irão viver e liderar esse futuro —, o apoio ainda é insuficiente. Educação ambiental de qualidade não é custo, é investimento estratégico, com impacto social duradouro e mensurável.
Integrar a emergência climática ao currículo escolar não significa acrescentar mais um conteúdo à já sobrecarregada grade. Significa repensar métodos, linguagens e prioridades. Significa conectar ciência, território, escolhas de consumo, políticas públicas e justiça social. Significa formar cidadãos capazes de compreender o mundo que habitam e de agir sobre ele com responsabilidade e senso crítico.
Diante desse cenário, fica o convite — e o chamado — às empresas que afirmam compromisso com a sustentabilidade, a responsabilidade social e o desenvolvimento do País: apoiar projetos educativos por meio da Lei de Incentivo à Cultura ou verba direta é uma oportunidade concreta de transformar discurso em ação. Investir em educação ambiental é investir em resiliência, cidadania e futuro. O tempo da emergência climática é agora — e a escola precisa caminhar junto com ele.
Fonte: https://www.estadao.com.br/opiniao/escola-falha-no-debate-ambiental/


